"Vinte e cinco de Abril de setenta e quatro" Tenho treze anos, muitas árvores, e a primavera afogueada a pender dos braços. Não sou eu que to digo, são os meus olhos a apontar não sei para onde, um jardim talvez, flores e armas, as flores a finar-se, as armas sempre vivas: as flores na mão, as armas na ideia, ou ao contrário, não interessa. As lágrimas a fugir do sangue, nenhuma tristeza, as ideias a murchar no asfalto, nós a correr esquecidos delas. Eu não queria ter treze anos, ninguém quer ter treze anos, olha-se para o lado e não se vê ninguém, e no entanto armas e flores; o futuro é muito tempo, filho, algum lugar há-de haver onde possas guardar os treze anos, por exemplo em abril ao pé das flores e das armas. Ninguém te pedirá nada, ninguém te dará nada, o mundo não começa em lado nenhum mas deves percorrê-lo até ao fim. Treze anos é tudo o que tens para a fome de Abril. - Nuno Higino